Assim falou Hera, e Hipnos, jubilante, retorquiu:
-Vamos! Jura pela terrível água do Estige. Pousa uma mão sobre a terra fértil, e a outra sobre o mar salgado e luminoso, para que todos os deuses que rodeiam Cronos nas profundezas sejam testemunhas. Jura que me darás a mão de uma das jovens Cárites, Pasítea, por quem anseio todos os meus dias!
Homero, Ilíada
As negociações não foram fáceis. Hera começou por oferecer a Hipnos um trono de ouro indestrutível, fundido nas forjas de Hefesto. Mas quem tem cu tem medo, e naqueles tempos os deuses também tinham fundilhos. Para mais, Hipnos já tinha ido na mesmíssima cantiga uma vez, e ia-se danando com a brincadeira. Não fosse a ajuda da mãezinha, e Zeus tinha-o feito em picado. Ora, à segunda só cai quem quer, e o que Hera lhe pedia era arriscado: tratava-se de pôr a dormir o próprio Zeus, para a manhosa se escapulir e dar uma ajudinha aos gregos, que tinham chegado ao intervalo a perder para a equipa de Tróia. O dorminhoco Hipnos muito hesitou, mas quando Hera subiu a parada e lhe ofereceu a mão de Pasítea, deixou para trás a sensatez. O amor também os punha tolinhos.
Não é provável que Pasítea, deusa das drogas, seja uma das graças aqui representadas por Baldung, pois que, geralmente, essa honra cabe a Aglaia, Tália, e Eufrosina. Mas se for tão bonita como as estas irmãs compreendo a alegria saltitante de Hipnos.
As graças (Cárites, para os gregos), são um tema pictórico relativamente frequente, tratado, entre tantos outros outros, por Rafael, Botticelli, Cranach, e Rubens. Na composição mais comum são dispostas três em círculo, de forma a apresentar cada uma das figuras num ângulo diferente, e de preferência com pouco roupa (uma boa desculpa para ilustrar o corpo feminino de frente, de perfil, e de costas). A opção de Baldung nesta pintura, ora pendurada no Prado, foi outra, e ainda bem. As expressões faciais são muito humanas e intensas, cheias de personalidade, e tenho um carinho especial pelo pescocito do cisne no canto inferior esquerdo (símbolo de Vénus, provavelmente).
Hans Baldung foi nascido e criado pelas alemanhas, viveu entre 1484 e 1545, mais ano menos ano, estudou com Dürer, e tinha três grandes interesses na vida: jovens muito bonitas, bruxas muito fornicantes, e velhas muito feias. Pintou incessantemente a morte e o envelhecimento, a decadência do corpo. É um dos meus preferidos, e hei-de voltar a ele em breve.
pois, pois, pois, pois... depois falas tu dos links que fazem corar no meu blog, olha que no teu temos de tudo: peito a descoberto, piquenos a olharem por baixo das saias das senhoras e cisnes matreiros!
ResponderEliminarolha fui ver mais sobre o Baldung e este (também) é demais: http://www.hellenica.de/Griechenland/Biographie/PhyllisHandBaldungGrien.jpg
ps- pensava que as bruxas estavam sempre (sempre!) de volta do caldeirão.
carolina
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